A Boneca de Kokoschka // Afonso Cruz

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Monday, 6 November 2017



- É sempre assim: nunca ouviu dizer que aquilo que procuramos, aquilo que mais desejamos, está sempre à frente dos nossos olhos? Nós só temos de nos afastar quilómetros dolorosos para conseguirmos ver.

Afonso Cruz, A Boneca de Kokoschka, p 134

PT
Este foi, provavelmente, o livro de Afonso Cruz que mais gostei de ler, depois de já ter gostado bastante de ler este e este.
Adoro a forma como temas tão sérios são abordados numa escrita simultaneamente sensível e cheia de sentido de humor, que faz com que até as coisas mais banais adquiram uma beleza fora do comum.

A Boneca de Kokoschka é uma história labiríntica de incríveis personagens, de histórias dentro de histórias, de um livro dentro de um livro, de personagens, tempos e vidas que se cruzam.
Uma visão mais realista do amor não precisa de deixar de ser romântica. Acreditar no destino não precisa de impedir-nos de seguir o nosso caminho. A guerra afasta, mas também pode aproximar as pessoas. Por vezes os pássaros têm mais medo da liberdade do que das gaiolas que os impedem de a viver.

Leiam.

EN
This was probably the book by Portuguese writer Afonso Cruz that I most liked to read, after having already enjoyed reading this and this one.
I love the way themes so serious are approached in a writing that is both sensitive and full of humor, which makes even the most mundane things acquire a beauty out of the ordinary.

A Boneca de Kokoschka [Kokoschka's Doll] is a labyrinthine story of incredible characters, stories within stories, a book within a book, characters, times and lives that intersect.
A more realistic view of love doesn't need to stop been romantic. Believing in destiny doesn't have to prevent us from following our path. War moves away, but it can also bring people closer together. Sometimes birds are more afraid of freedom than of the cages that hold them.

Read it.

Jesus Cristo Bebia Cerveja // Afonso Cruz

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Monday, 9 January 2017



A natureza abomina o vazio, ou dito numa língua morta: natura abhorret vacuum. Mas que ele existe, existe. Parece que o Nada, a existir, deixa de ser Nada para ser alguma coisa. A natureza não gosta de espaços vazios e preenche-os como um burocrata preenche requerimentos. Não deixa buracos em lado nenhum. Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana, são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e subpartículas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas. A natureza enche chouriços, não há espaço vazio nas suas tripas. Um homem olha à sua volta e não encontra nada que não esteja já ocupado. Assim pensam os homens com a razão e a lógica que se passeia nos interstícios dos seus cérebros cinzentos, nessas dobras confusas que se assemelham a um intestino redondo ou a uma noz. Mas os homens que pensam com os sentimentos, têm outra lógica a nadar-lhes nas veias e artérias. Esses acreditam no vazio porque o vêem a toda a hora dentro de si.

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, p. 138

PT
Afonso Cruz leva-nos sempre para um mundo demasiado surreal para ser verdadeiro e talvez demasiado realista para ser sonho.
Ali encontramos motivos para rir e para chorar, motivos para reflectir sobre a inevitável tristeza da vida e para acreditar que é possível encontrar a felicidade onde menos se espera.

Jesus Cristo Bebia Cerveja multiplica personagens que acabam por encontrar-se num enredo de ilusão, ironia, decadência e morte, mas também de ternura, humor e humanidade.
Um sem fim de maravilhosas citações que apetece guardar e reler várias vezes - tendo em conta que o livro que li é emprestado, resta a vontade e a certeza de voltar a encontrar Afonso Cruz noutras leituras!

EN
Afonso Cruz always takes us to a world too surreal to be true and perhaps too realistic to be a dream.
In here you'll find reasons to laugh and cry, to reflect on the inevitable sadness of life and to believe that it is possible to find happiness where you least expect it.

Jesus Cristo Bebia Cerveja [Jesus Christ Drank Beer] multiplies characters that end up meeting in a plot of illusion, irony, decay and death, but also of tenderness, humor and humanity.
An endless number of wonderful quotations that you want to keep and re-read often - taking into account that the book I read was borrowed, there remains the will and the certainty of finding Afonso Cruz again in other readings.

Para Onde Vão os Guarda-Chuvas // Afonso Cruz

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Tuesday, 14 July 2015



Tal como Elahi, Isa temia que a felicidade fosse apenas a maneira que o universo tem de nos fazer sofrer, um método atroz que faz com que experimentemos a saciedade e uma espécie de alegria, para depois nos retirar isso tudo, nos puxar o tapete e nos levar a uma infelicidade de efeito mais profundo. A melhor maneira de fazer uma pessoa cair é levá-la para um lugar alto, o universo sabe fazer isso muito bem, sabe levar-nos para cima das coisas para melhor nos empurrar. Não se empurra uma pessoa que está no chão, é preciso ampará-la primeiro, é preciso fazê-la subir umas escadas. É preciso que a pessoa sinta vertigens. É preciso que caia de muito alto. É assim que o universo ri.

Afonso Cruz, Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, p 472

PT
Foi um pouco por acaso que me cruzei com Afonso Cruz na Feira do Livro do Porto no ano passado, mas na altura não resisti a pedir-lhe para autografar este Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, que terminei de ler há pouco. A compra foi por impulso, mas algo me dizia que não iria arrepender-me.

É mais um delicioso livro de pequenos tesouros. Um livro que fala de dor, perda, violência, pobreza e morte,  mas também de poesia, da beleza das pequenas coisas que fazem os nossos dias valer a pena.
Um livro que nos deixa de coração apertado, a pensar na inevitabilidade da perda e na difícil possibilidade de redenção em que todos queremos acreditar.
Um livro que nos faz pensar que somos tão pequenos, mas no fundo não somos assim tão diferentes uns dos outros - mesmo quando só vemos as diferenças - que a religião pode ser universal, mesmo que seja tantas vezes motivo de discórdia e incompreensão, que é possível que dentro de cada um de nós exista um universo maior do que o que (des)conhecemos cá fora.

Este equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado será justo?
Será a perda irremediável?
Poderemos nunca vir a ter respostas, mas questionarmo-nos será sempre uma necessidade.

EN
It was somewhat by chance that I met Afonso Cruz at the Book Fair of Porto last year, but at the time I still couldn't resist asking him to sign this Para Onde Vão os Guarda-Chuvas [Where Do Umbrellas End Up?], I finished reading not long ago. The purchase was on impulse, but something told me I wouldn't regret it.

It's a delightful book of small treasures. A book that speaks of pain, loss, violence, poverty and death, but also of poetry, of the beauty of small things that make our days worthwhile.
A book that leaves us with a heavy heart, thinking about the inevitability of loss and the difficult possibility of redemption in which we all want to believe.
A book that makes us think that we are so small, but deep down we are not so different from each other - even when we only see the differences - that religion may be universal, even if it is often a bone of contention and misunderstanding, that is possible that within each of us there is a larger universe than the one we (un)know outside.

Is this absurdly/morally/aesthetically unbalanced balance fair?
Is loss irreparable?
We may never reach the answers but asking will always be a necessity.

Ana Pina | blog

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