Aprender a Rezar na Era da Técnica // Gonçalo M. Tavares

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Monday, 29 May 2017



Alguém com um sentido tenso dos deveres e que conhecia todo o comprimento de uma decisão - percebia bem que qualquer vontade, depois de desencadeada, deve ser aplicada em cada ponto até ao seu final, sem uma única indecisão ou abrandamento. Sabia que não se pode mudar no último momento a direcção do bisturi ou de uma bala, pois é assim que sucedem os erros, as grandes falhas - esse pecado não é apenas técnico, mas também moral, de se atingir por inabilidade, por exemplo, um aliado.
(...) A velocidade mais importante, dizia Frederich Buchmann, não é a da máquina onde estamos sentados mas a das decisões que tomamos. Velocidade que depende exclusivamente do organismo; do sangue que recebes quando nasces e das ideias que recebes quando cresces. É a verdadeira velocidade, dizia Frederich, aquela com que decides. Ao lado disto, a velocidade de um avião é semelhante à de uma carroça.

Gonçalo M. Tavares, Aprender a Rezar na Era da Técnica, p 105

PT
Não vou cansar-vos de novo a repetir que toda a gente devia ler Gonçalo M. Tavares, um dos escritores portugueses mais geniais de sempre e, a depender de mim, o nosso futuro segundo Nobel da Literatura.

Terminei recentemente o terceiro dos quatro livros d'O Reino, uma espécie de colectânea do que de mais humano e negro a humanidade tem. Loucura, guerra, doença... seguimos incrédulos a frieza com que são narradas as situações mais condenáveis, mais aberrantes, mais repugnantes - como se fossem normais. E não são?

EN
I won't tire you by repeating again that everyone should read Gonçalo M. Tavares, one of the most genial Portuguese writers ever and, depending on me, our future second Nobel of Literature.

I have recently finished the third of the four books of The Kingdom, a kind of collection of humanity's most humane and black aspects. Madness, war, disease... we follow in disbelief the coldness with which the most damnable, aberrant, and repugnant situations are narrated - as if they were normal. And aren't they?

animalescos // Gonçalo M. Tavares

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Wednesday, 25 May 2016



(...) eis pois as duas funções do solo: não deixar  cair e permitir que sobre ele algo cresça, e assim os homens e também os animais nas suas diferentes fases: no início exigimos ao solo que seja a plataforma onde pousamos os pés para crescer, mas depois crescemos e, em pouco tempo, já queremos fugir e não subir e depois já só queremos não cair, exigimos ao solo que não nos deixe cair, que pelo menos isso, que por favor isso, que rezo ao deus que quiserem para isso, que o solo não te deixe cair e já é bom, porque ao ar não te podes agarrar mesmo quando nesse ar está meio escondido um gesto de cruz que foi feito para abençoar, mas falhou

Gonçalo M. Tavares, animalescos, p 103

PT
Humanidade, animal, deus, cidade, doença, loucura... animalescos são exercícios mentais, passeios literários (ou corridas desenfreadas), brincadeiras sérias com sentidos e palavras, um livro pouco convencional para quem gosta de ser desafiado. Como a pintura de Bacon na capa, este livro assume várias formas e pode deixar quem lê louco, lúcido.

EN
Humanity, animal, god, city, disease, madness... animalescos are mental exercises, literary tours (or fast races), serious play with words and senses, an unconventional book for those who like to be challenged. Like Bacon painting on the cover, this book takes many forms and can leave those who read it crazy, lucid.

A Máquina de Joseph Walser // Gonçalo M. Tavares

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Monday, 12 January 2015



Agir com um sentido importante era a normalidade do tempo de guerra e a preguiça era o seu oposto. Ver alguém a não fazer nada e a não querer fazer nada, causaria tanta estranheza e, provavelmente, tanto repúdio como ver em pleno jardim, na Primavera, um louco a repetir movimentos bruscos e acelerados: arrancando flores com violência, pisando canteiros, abrindo buracos na terra com os dedos. Em tempos de grande intensidade alguém que não soubesse para onde caminhava ou para que fazia aquilo que fazia, estaria louco, pois estaria abstraído dos acontecimentos. Afundar-se no mundo abstracto em período de guerra - momento absoluto do concreto, da matéria e das forças que chocam e combatem - era o mais violento dos actos. Talvez mesmo o mais imoral.
Klober, aliás, fizera já esta pergunta a Walser: o que é mais imoral nestes tempos: matar ou aprender geometria? E Walser nunca lhe soubera responder.

Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph Walser

PT
Provavelmente já tiveram a sensação de se sentirem inúteis por acharem não estar a fazer nada. Provavelmente já se vingaram de dias mais cansativos não fazendo coisa nenhuma - e não faz mal.
Tempos adversos podem alterar a nossa percepção da realidade, mas rapidamente voltamos ao estado de inércia natural quando os bons ventos trazem a prosperidade de volta. Talvez sejam as dificuldades que nos fazem crescer e inventar novos modos de avançar. Talvez a calma de uma época de paz nos faça esquecer a força que temos quando dela precisamos. Mas parecermos ocupados não é exactamente o mesmo que fazermos alguma coisa (útil) e talvez por isso mesmo a felicidade e o descanso nunca sejam completos. Talvez por isso a inquietação cresça sem precisar de água no peito dos mais insatisfeitos, mesmo em tempos em que a paz e a riqueza abundam.
A qualquer momento, as coisas inúteis que fazemos para nós próprios sem ideia de proveito revelarão a sua utilidade [Marguerite Yourcenar, Memórias de AdrianoCaderno de Notas].

Impossível ler Gonçalo M. Tavares sem ficar com a sensação de termos levado um encontrão - daqueles que nos deixam de boca e olhos abertos.

EN
[After reading Joseph Walser's Machine, by Gonçalo M. Tavares.]

You probably already had the sensation of feeling useless because you're not doing anything. You probably took revenge of more weary days by doing nothing at all - and that's ok.
Adverse times can change our perception of reality, but we quickly return to the natural state of inertia when the good winds bring prosperity back. Maybe it's the difficulties that make us grow and invent new ways to advance. Perhaps the calm of a time of peace makes us forget the strength we have when we need it. But to seem busy is not exactly the same as doing something (useful) and perhaps for that the feelings of happiness and peace are never complete. Maybe that's why disquiet grows without need of water in the heart of the most dissatisfied, even in times when peace and wealth abound.
In time, the useless things we do for ourselves without idea of benefit will reveal its usefulness [Marguerite Yourcenar, Memoirs of Hadrian, Carnet de Note].

Impossible to read Gonçalo M. Tavares without getting the feeling of having taken a push - one of those that leave us with the mouth and eyes open.

Uma Viagem à Índia

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Monday, 14 July 2014

De qualquer maneira, ninguém está assim tão vivo.
O inexplicável não é, muitas vezes, o reduzido número de paixões
por dia, mas sim a razão por que não nos atiramos todos,
um a um, a intervalos regulares, de um prédio alto.
Não há duas pessoas que estejam ao mesmo tempo
no mesmo lugar: uma pessoa foge das
outras. No autocarro, lê-se o jornal para não se olhar para o lado.
O frio deixou de entrar pela janela - entra pelas notícias.
Fecha-se o jornal; já podes levantar os olhos: felizmente estás sozinho.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia
40, canto V, página 221

PT
A leitura de qualquer livro de Gonçalo M. Tavares será, muito provavelmente, uma maravilhosa viagem.
Conheci-o com a leitura de Jerusalém, um pouco por acaso, e quando fechei o livro depois de ler a última página, tive a certeza de que seria um autor que iria reler e reler ao longo da vida.

Difícil descrever a sensação - a de ter descoberto um autor que servirá sempre de referência, do qual irei sempre querer ler os próximos livros publicados ou descobrir os livros que existiram antes disso.
Senti-o com Saramago, aos 15 anos, e nunca voltei a senti-lo com a mesma intensidade.

Uma Viagem à Índia é, definitivamente, um livro diferente. Percebe-se mal se abre o livro, pela forma como está escrito, que a leitura não será fácil nem comum. Uma epopeia moderna, cheia de referências, reflexões, frases-revelação. Exigente e rigoroso, Gonçalo M. Tavares parece encarar o pessimismo com a naturalidade de uma lucidez desconcertante, enquanto aborda os temas da morte, da existência e crueldade humanas com uma intensidade séria e segura, digna de um raciocínio matemático.

Se gostam de ser psicologicamente surpreendidos, não deixem de ler Gonçalo M. Tavares.

EN
To read any book by Gonçalo M. Tavares will, most definitely, be a wonderful trip.
I first contacted his style with the reading of Jerusalém, somewhat by chance, and when I closed the book after reading the last page, I was sure it would be an author I would reread and reread throughout my life.

It's difficult to describe the feeling - to have discovered an author who will always serve as a reference, whose published books I'll always want to read.
I felt it when I first read Saramago, at age 15, and never felt it with the same intensity again. 

Uma Viagem à Índia [A Voyage to India] is definitely a different book. One perceives it in the instant one opens the book, by the way it's written: the reading won't be easy nor common. A modern epic, full of references, reflections, revelation-phrases. Demanding and rigorous, Gonçalo M. Tavares seems to see pessimism with the naturalness of a disconcerting clarity, while deals with themes of death, existence and human cruelty with a serious and self-assured intensity, worthy of mathematical thinking. 

If you like to be psychologically overwhelmed, don't forget to read Gonçalo M. Tavares, a Portuguese author translated in over 45 countries.

Ana Pina | blog

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