O Deslumbre de Cecilia Fluss // João Tordo

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Wednesday, 10 January 2018



Se a memória fosse o registo dos factos, não existiria dúvida. Não o é, porque a memória, longe de registar os factos, regista a nossa insatisfação com os factos, a nossa aversão e tristeza perante os factos, a nossa alegria e júbilo em relação aos factos, regista tudo menos os factos, tudo menos aquilo que aconteceu.

João Tordo, O Deslumbre de Cecilia Fluss, p 95

PT
O Deslumbre de Cecilia Fluss não é propriamente um típico livro de João Tordo. Faz parte de uma trilogia - a dos lugares sem nome - e embora tenha sido o primeiro que li, foi o último a ser publicado. A ordem não é importante, uma vez que as histórias se vão cruzando, contadas por diferentes narradores, e de algum modo as surpresas vão sendo reveladas pelo caminho.

Nos livros que li anteriormente do autor, há sempre uma enorme necessidade de narrar uma história - a personagem principal encontra-se tão angustiada, perturbada ou confusa, que reviver ou partilhar o passado acaba por funcionar como uma catarse, uma tentativa de esclarecer o que aconteceu ou o tornar público para auxílio ou fascínio dos demais.

Este Deslumbre é sobretudo uma viagem interior, mais madura e reflexiva, pontuada pela inocência da juventude, pelos ensinamentos do budismo, pela impotência da loucura. O doloroso regresso ao passado continua presente, mas aqui não é atropelado por uma sucessão de acontecimentos, é antes prisioneiro da incerteza e das ratoeiras da memória, podendo servir para explicar o presente ou apenas para o incendiar.

Leiam - por mim, já tenho os outros dois em lista de espera!

EN
O Deslumbre de Cecilia Fluss [The Dazzle of Cecilia Fluss] is not exactly a typical book by João Tordo. It's part of a trilogy - of the nameless places - and although it was the first one I read, it was the last to be published. The order is not important, as the stories intersect, told by different storytellers, and somehow the surprises are revealed along the way.

In the books by this author I read earlier, there is always a great need to tell a story - the main character is so distressed, disturbed or confused, that reliving or sharing the past ends up functioning as a catharsis, an attempt to clarify what happened or to make it public for the help or fascination of others.

This Dazzle is above all an inner journey, more mature and reflective, punctuated by the innocence of youth, by the teachings of Buddhism, by the impotence of madness. The painful return to the past is still present, but here it is not run over by a succession of events, it is rather a prisoner of uncertainty and the mousetraps of memory, which may serve to explain the present or just to set it afire.

Read it - I already have the other two on the waiting list!

O Livro dos Homens sem Luz // João Tordo

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Thursday, 30 June 2016



Tudo, a seu tempo, se evaporara, como se as coisas fossem feitas de água. Os oceanos eram água, tal como os mares e os rios, e os beirais dos telhados quando chovia, e as poças no asfalto, e o corpo era água, e os meus olhos também. Naquele instante em que o mundo se tornou turvo, em que as formas das coisas se mancharam, senti pela primeira vez a vertigem da ilusão, uma ilusão que me tinha enganado toda a vida, convencendo-me disto, e depois daquilo, e sempre desmentindo, negando, roubando, levando aquilo que dera.

João Tordo, O Livro dos Homens sem Luz, p 200 

PT
Mais um livro de João Tordo e começo a ficar viciada nos enredos feitos de personagens angustiadas que nos levam a perseguir memórias, mistérios e fantasmas.

EN
One more book by João Tordo and I start to feel addicted to plots made of anguished characters that take us chasing memories, mysteries and ghosts.

Hotel Memória // João Tordo

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Wednesday, 18 February 2015


[Detail of Casa Batlló]

Não sei dizer com precisão quanto tempo mantive este ritual, mas penso que deve ter durado dois meses. Dois meses em silêncio, dos quais não guardo outras recordações senão estas, a triste estadia de um homem solitário num poço sem fundo de álcool. Começava a compreender, então, o poder do passado. O passado pode corroer o presente e minar o futuro; é o passado que nos afoga a cara na lama quando já caímos por terra, e que regressa nos momentos mais inesperados para tirar de nós aquilo que já não temos, o sabor das coisas que não tornam a acontecer, porque cada minuto que acontece se perde no precipício ao qual tudo vai, irrevogavelmente, parar.

João Tordo, Hotel Memória

PT
Tento há anos ler regularmente, procurando evitar que todas as obrigações crescentes que nos roubam tempo diariamente me façam abdicar também deste prazer. Intercalo estilos e autores e nem sempre me apetece pegar naquele livro de um autor favorito se o estado de espírito não está em conformidade com o que espero da leitura. Sim, às vezes leio livros apenas para passar tempo, daqueles que não ganham prémios nem somam erudição à lista de leituras... há momentos para tudo. Ainda assim, tento escolher o melhor possível, até porque leio devagar e o tempo não é muito, e nos últimos anos tenho procurado selecionar alguns dos mais recentes autores de língua portuguesa, que muito me têm surpreendido pela positiva, sobretudo Gonçalo M. Tavares, mas também José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe ou João Tordo.

Gostei muito deste Hotel Memória, o segundo livro que li de João Tordo - mais até do que do outro. Em João Tordo o conteúdo e a densidade da trama acaba por ser mais marcante do que a forma como esta é contada - o cenário, os acontecimentos e as personagens acabam por manter-nos envolvidos muito depois da leitura terminar, como se também nós tivéssemos sido incluídos na acção. Li o livro em pouco tempo, mas parece que vivera anos entre as linhas do Hotel Memória e tinha já pena de o deixar.

Um dos aspectos mais interessantes - e que tem vindo a ser recorrente noutros autores desta geração, como curiosamente foi discutido na conversa em que João Tordo esteve presente na última edição da Feira do Livro do Porto - é o facto de este livro aparentar poder ter sido escrito, tanto por um autor português, como de outra nacionalidade - e não digo isto por achar que a identidade nacional se está a perder de algum modo, mas sim, porque os autores portugueses estão cada vez mais internacionais/globais, quer pelas suas vivências, quer pelas suas abordagens e sem que isso os faça esquecer as suas origens (não acho, de todo, que a relação tenha que ser directa).

A memória, essa, irá continuar a deixar-me dividida entre o prazer de recordar e a nostalgia de não podermos nunca regressar ao que fomos - nostalgia que muitas vezes é uma enorme e incontrolável tristeza, uma terrível sensação de irremediável perda. Penso que, por muito realizados que nos sintamos no presente, a maior dificuldade de envelhecer é mesmo essa.

EN
I've been trying to read regularly for years, trying to avoid that all the growing daily obligations that steal us time make me give up of this pleasure too. I diversify in styles and authors, and I don't always feel like picking up that book by a favorite author if the mood is not in line with what I expect of the reading. Yes, sometimes I read books just to pass time, those that don't win awards or add any sense of erudition to the reading list... there is space for everything. Still, I try to choose the best possible, because I read slowly and time is not much. In recent years I've sought to select some of the most recent authors of Portuguese language and I've been positively surprised, especially by Gonçalo M. Tavares, but also José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe or João Tordo.

I really enjoyed this Hotel Memória [Memory Hotel], the second book I read by João Tordo - even more than the other one. In João Tordo the content and the density of the plot turns out to be more prominent than the way it is told - the scenery, the events and the characters keep us involved long after the reading is finished, as if we too had been included in the action. I read the book in a short time, but it seems that I lived years between the lines of Memory Hotel and was already feeling sorry to let go.

One of the most interesting aspects - and that has been recurring in other authors of this generation, as curiously was discussed in the conversation in which João Tordo was present in the latest edition of the Book Fair of Porto - is the fact that this book appears to may have been written, either by a Portuguese author, as by one of another nationality - and I don't say this because I think that national identity is being lost in some way, but because Portuguese authors are becoming increasingly international/global, either by their experiences as by their approach, but without making them forget their origins (I don't think the relation must be direct).

When it comes to memory, it will continue to let me torn between the pleasure of remembering and the nostalgia of knowing that we won't ever return to what we were - a nostalgia that is often a huge and uncontrollable sadness, a terrible sense of irretrievable loss. I think, as much as we may feel accomplished in the present, this is definitely the greatest difficulty of aging.

O Bom Inverno // João Tordo

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Tuesday, 25 November 2014


1. Baiona

O meu esforço foi tão grande que as lágrimas de dor rapidamente se transformaram num riso de escárnio, e ri-me da minha figura trôpega a meio de um temporal, e ri-me de raiva, e ri-me do suor que me jorrava pelas têmporas, e ri-me do mundo e do que estava para lá do mundo, e ri-me dos deuses que pareciam zombar da minha lentidão. O Inverno chegara, afinal; e era um Inverno de dilúvio, um Inverno de morte, um Inverno de culpa. Era um Inverno convocado por uma confissão e, contudo, mais do que vergonha pela minha mentira - pelo opróbrio de uma condenação -, aquilo que sentia era perplexidade, porque a minha confissão havia, no fundo, sido a confissão de um verdadeiro escritor - o tal cobarde e o tal mentiroso que, por vezes, embora muito raramente, era também corajoso; havia sido a confissão de quem se refugiava numa mentira possível em substituição da realidade impossível.

João Tordo, O Bom Inverno

PT
Há já algum tempo que estava curiosa para ler João Tordo, tal como irei, provavelmente, querer ler cada um dos vencedores do Prémio Literário José Saramago (já lá vão quatro), mas foi um pouco por acaso que peguei neste O Bom Inverno e o levei comigo de férias.

Devorei-o em poucos dias e estou certa de que não terá sido apenas porque os dias de praia me deram pouco o que fazer. O enredo tem um pouco de tudo para nos prender: romance, policial, humor, mistério, terras distantes, personagens e diálogos fortes, um narrador que merece pena e admiração, um enredo cinematográfico que surpreende em catadupa (não se deixem levar pelo aparente marasmo dos primeiros capítulos).
Imaginava-me a ver um filme, daqueles que não sabemos bem como vai acabar e a dada altura, sem conseguir tirar os olhos empolgados do ecrã, já não sabemos bem se queremos saber como acaba, com medo que o entusiasmo crescente termine em desilusão. Mas não, nada disso acontece, pelo menos para mim: a surpresa e o mistério mantêm-se, como se mantém a vontade de ler mais, de saber que narrativa poderá trazer a seguir João Tordo para povoar a nossa mente inquieta, sempre com mais vontade de colocar questões do que vê-las respondidas.

Já a pensar no livro do autor que irei ler a seguir.

EN
For some time I was curious to read João Tordo, as I'll probably want to read each of the winners of the Literary Prize José Saramago (read four so far), but was a little by accident that I bought and took this O Bom Inverno [The Good Winter] with me on vacation.

I devoured it in a few days and I'm sure it wasn't only because beach days gave me little to do. The plot has a bit of everything to hold us: romance, thriller, humor, mystery, distant lands, strong characters and dialogues, a narrator who deserves pity and admiration, a cinematic story that surprises in cascade (don't be mislead by the apparent apathy of the first chapters).
I imagined myself watching a movie, those you can't imagine how will end and at some point, unable to take the excited eyes of the screen, you're not sure you want to know how it ends, afraid that the growing enthusiasm ends in disappointment. But no, none of this happens, at least for me: the surprise and mystery remain, as remains the desire to read more, to know what narrative will bring João Tordo next to fill our restless mind, always more willing to ask questions than to see them answered.

Already thinking about the book by the author I'll read next.
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Ana Pina | blog

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