A Criança no Tempo // Ian McEwan

0

Monday, 26 March 2018



Mais tarde, nos meses e anos dolorosos, Stephen esforçar-se-ia por reentrar nesse momento, abrir caminho para trás através das pregas entre acontecimentos, enfiar-se entre os lençóis e inverter a sua decisão. Mas o tempo - não necessariamente como é, porque sabe lá alguém como ele é, mas como o pensamento o constituiu - proíbe monomaniacamente segundas oportunidades. Não existe nenhum tempo absoluto, dissera-lhe em certas ocasiões a sua amiga Thelma, nenhuma entidade independente. Só o nosso entendimento particular e fraco.

Ian McEwan, A Criança no Tempo, p 15

PT
Nunca tinha pensado em ler Ian McEwan, mas quando recentemente me apercebi que é o autor de Expiação - um filme que gostei bastante de ver - fiquei com curiosidade de pegar neste A Criança no Tempo que estava lá em casa, entre os livros da colecção Mil Folhas.

Contado do ponto de vista de um pai que passa por um dos maiores imagináveis pesadelos - perder a filha de três anos no supermercado - é um livro de escrita segura, capaz de momentos comoventes e de um revigorante sentido de humor. O livro não tem uma narrativa linear, o que a torna ainda mais interessante, mas recua e avança no tempo para nos dar um retrato da vida da personagem e de alguns momentos importantes que inevitavelmente a memória recupera no presente - essa memória que tanto contribui para o que somos hoje.
A vida interior da personagem é expressa através de uma grande tensão emocional, que varia entre a inércia da incredulidade e o desespero da loucura e em que a cena do desaparecimento é vivida de forma extremamente rica e realista.

Para pensar sobre a infância, sobre o crescimento até à maturidade, sobre a forma como o tempo se faz sentir, pleno de surpresas e revelações, de dificuldades e desafios, de evoluções e recomeços.

EN
I had never thought about reading Ian McEwan, but when I recently realized that he is the author of Atonement - a film I liked a lot to watch - I was curious enough to pick up this The Child in Time that I already had at home.

Told from the point of view of a father who goes through one of the biggest imaginable nightmares - losing his three year old daughter in the supermarket - is a book with a secure writing, capable of touching moments and an invigorating sense of humor. The book doesn't have a linear narrative, which makes it even more interesting, but it goes back and forth in time to give us a picture of the character's life and some important moments that memory inevitably recovers in the present - that memory that contributes so much to what we are today.
The inner life of the character is expressed through great emotional tension, which varies between the inertia of unbelief and the despair of madness and where the scene of the disappearance is experienced in an extremely rich and realistic way.

To think about childhood, about growth until maturity, about how time is felt, full of surprises and revelations, of difficulties and challenges, of evolutions and beginnings.

O Deslumbre de Cecilia Fluss // João Tordo

0

Wednesday, 10 January 2018



Se a memória fosse o registo dos factos, não existiria dúvida. Não o é, porque a memória, longe de registar os factos, regista a nossa insatisfação com os factos, a nossa aversão e tristeza perante os factos, a nossa alegria e júbilo em relação aos factos, regista tudo menos os factos, tudo menos aquilo que aconteceu.

João Tordo, O Deslumbre de Cecilia Fluss, p 95

PT
O Deslumbre de Cecilia Fluss não é propriamente um típico livro de João Tordo. Faz parte de uma trilogia - a dos lugares sem nome - e embora tenha sido o primeiro que li, foi o último a ser publicado. A ordem não é importante, uma vez que as histórias se vão cruzando, contadas por diferentes narradores, e de algum modo as surpresas vão sendo reveladas pelo caminho.

Nos livros que li anteriormente do autor, há sempre uma enorme necessidade de narrar uma história - a personagem principal encontra-se tão angustiada, perturbada ou confusa, que reviver ou partilhar o passado acaba por funcionar como uma catarse, uma tentativa de esclarecer o que aconteceu ou o tornar público para auxílio ou fascínio dos demais.

Este Deslumbre é sobretudo uma viagem interior, mais madura e reflexiva, pontuada pela inocência da juventude, pelos ensinamentos do budismo, pela impotência da loucura. O doloroso regresso ao passado continua presente, mas aqui não é atropelado por uma sucessão de acontecimentos, é antes prisioneiro da incerteza e das ratoeiras da memória, podendo servir para explicar o presente ou apenas para o incendiar.

Leiam - por mim, já tenho os outros dois em lista de espera!

EN
O Deslumbre de Cecilia Fluss [The Dazzle of Cecilia Fluss] is not exactly a typical book by João Tordo. It's part of a trilogy - of the nameless places - and although it was the first one I read, it was the last to be published. The order is not important, as the stories intersect, told by different storytellers, and somehow the surprises are revealed along the way.

In the books by this author I read earlier, there is always a great need to tell a story - the main character is so distressed, disturbed or confused, that reliving or sharing the past ends up functioning as a catharsis, an attempt to clarify what happened or to make it public for the help or fascination of others.

This Dazzle is above all an inner journey, more mature and reflective, punctuated by the innocence of youth, by the teachings of Buddhism, by the impotence of madness. The painful return to the past is still present, but here it is not run over by a succession of events, it is rather a prisoner of uncertainty and the mousetraps of memory, which may serve to explain the present or just to set it afire.

Read it - I already have the other two on the waiting list!

A Boneca de Kokoschka // Afonso Cruz

0

Monday, 6 November 2017



- É sempre assim: nunca ouviu dizer que aquilo que procuramos, aquilo que mais desejamos, está sempre à frente dos nossos olhos? Nós só temos de nos afastar quilómetros dolorosos para conseguirmos ver.

Afonso Cruz, A Boneca de Kokoschka, p 134

PT
Este foi, provavelmente, o livro de Afonso Cruz que mais gostei de ler, depois de já ter gostado bastante de ler este e este.
Adoro a forma como temas tão sérios são abordados numa escrita simultaneamente sensível e cheia de sentido de humor, que faz com que até as coisas mais banais adquiram uma beleza fora do comum.

A Boneca de Kokoschka é uma história labiríntica de incríveis personagens, de histórias dentro de histórias, de um livro dentro de um livro, de personagens, tempos e vidas que se cruzam.
Uma visão mais realista do amor não precisa de deixar de ser romântica. Acreditar no destino não precisa de impedir-nos de seguir o nosso caminho. A guerra afasta, mas também pode aproximar as pessoas. Por vezes os pássaros têm mais medo da liberdade do que das gaiolas que os impedem de a viver.

Leiam.

EN
This was probably the book by Portuguese writer Afonso Cruz that I most liked to read, after having already enjoyed reading this and this one.
I love the way themes so serious are approached in a writing that is both sensitive and full of humor, which makes even the most mundane things acquire a beauty out of the ordinary.

A Boneca de Kokoschka [Kokoschka's Doll] is a labyrinthine story of incredible characters, stories within stories, a book within a book, characters, times and lives that intersect.
A more realistic view of love doesn't need to stop been romantic. Believing in destiny doesn't have to prevent us from following our path. War moves away, but it can also bring people closer together. Sometimes birds are more afraid of freedom than of the cages that hold them.

Read it.

Olhos Azuis, Cabelo Preto // Marguerite Duras

0

Monday, 16 October 2017



... a partir do momento em que não se passa nada entre eles, fica a memória infernal daquilo que não acontece.

Marguerite Duras, Olhos Azuis, Cabelo Preto, p 30

PT
De leitura difícil, mas sem dúvida intensa, Olhos Azuis, Cabelo Preto sucede-se como uma peça de teatro, entre momentos constrangedores, diálogos enigmáticos, sentimentos contraditórios e uma estranha definição da ideia de amor.
Com vontade de ler mais Marguerite Duras.

EN
Of difficult but undoubtedly intense reading, Blue Eyes, Black Hair succeeds like a play, between embarrassing moments, enigmatic dialogues, contradictory feelings and a strange definition of the idea of love.
Want to read more Marguerite Duras.

Uma Casa na Escuridão // José Luís Peixoto

2

Tuesday, 22 August 2017



Mas, devagar, o tempo transformava tudo em tempo. Essa é a explicação da eternidade. Devagar, o tempo transforma tudo em tempo. O ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo. Os assuntos que julgámos mais profundos, mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, transformam-se devagar em tempo. Por si só, o tempo não é nada. A idade de nada é nada. A eternidade não existe e, no entanto, a eternidade existe.

José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão, p 241

PT
Depois do Livro fiquei com vontade de ler mais José Luís Peixoto, mas confesso que não foi este Uma Casa na Escuridão que preencheu totalmente as expectativas que tinha criado.
Embora tenha muitos momentos maravilhosos e característicos da sensibilidade literária de Peixoto, alguma repetição acabou por cansar-me e tornar a escuridão que se vai adensando ao longo da história cada vez mais negra, talvez demasiado.
O Amor não consegue compensar a espécie de metáfora do fim do mundo que nos espera no final. Saímos derrotados pela morte e vencidos pelo cansaço. Assistimos impotentes a um tempo que se desperdiça entre os dedos, mas parece que nunca mais chega ao fim - irá sem dúvida demorar-se cá dentro.

EN
After Livro I wanted to read more of José Luís Peixoto, but I confess that this A House in Darkness didn't completely fulfilled my expectations.
Even though it has many wonderful moments characteristic of the literary sensibility of Peixoto, some repetition ended up tiring me and making the darkness become more and more black along the way, perhaps too much.
Love isn't able to compensate for the kind of end-of-the-world metaphor that awaits us in the end. We are defeated by death and overcome by fatigue. We watch helplessly for a time that is wasted between the fingers, but seems to never come to an end - it will definitely linger inside.

Aprender a Rezar na Era da Técnica // Gonçalo M. Tavares

0

Monday, 29 May 2017



Alguém com um sentido tenso dos deveres e que conhecia todo o comprimento de uma decisão - percebia bem que qualquer vontade, depois de desencadeada, deve ser aplicada em cada ponto até ao seu final, sem uma única indecisão ou abrandamento. Sabia que não se pode mudar no último momento a direcção do bisturi ou de uma bala, pois é assim que sucedem os erros, as grandes falhas - esse pecado não é apenas técnico, mas também moral, de se atingir por inabilidade, por exemplo, um aliado.
(...) A velocidade mais importante, dizia Frederich Buchmann, não é a da máquina onde estamos sentados mas a das decisões que tomamos. Velocidade que depende exclusivamente do organismo; do sangue que recebes quando nasces e das ideias que recebes quando cresces. É a verdadeira velocidade, dizia Frederich, aquela com que decides. Ao lado disto, a velocidade de um avião é semelhante à de uma carroça.

Gonçalo M. Tavares, Aprender a Rezar na Era da Técnica, p 105

PT
Não vou cansar-vos de novo a repetir que toda a gente devia ler Gonçalo M. Tavares, um dos escritores portugueses mais geniais de sempre e, a depender de mim, o nosso futuro segundo Nobel da Literatura.

Terminei recentemente o terceiro dos quatro livros d'O Reino, uma espécie de colectânea do que de mais humano e negro a humanidade tem. Loucura, guerra, doença... seguimos incrédulos a frieza com que são narradas as situações mais condenáveis, mais aberrantes, mais repugnantes - como se fossem normais. E não são?

EN
I won't tire you by repeating again that everyone should read Gonçalo M. Tavares, one of the most genial Portuguese writers ever and, depending on me, our future second Nobel of Literature.

I have recently finished the third of the four books of The Kingdom, a kind of collection of humanity's most humane and black aspects. Madness, war, disease... we follow in disbelief the coldness with which the most damnable, aberrant, and repugnant situations are narrated - as if they were normal. And aren't they?

Jesus Cristo Bebia Cerveja // Afonso Cruz

0

Monday, 9 January 2017



A natureza abomina o vazio, ou dito numa língua morta: natura abhorret vacuum. Mas que ele existe, existe. Parece que o Nada, a existir, deixa de ser Nada para ser alguma coisa. A natureza não gosta de espaços vazios e preenche-os como um burocrata preenche requerimentos. Não deixa buracos em lado nenhum. Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana, são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e subpartículas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas. A natureza enche chouriços, não há espaço vazio nas suas tripas. Um homem olha à sua volta e não encontra nada que não esteja já ocupado. Assim pensam os homens com a razão e a lógica que se passeia nos interstícios dos seus cérebros cinzentos, nessas dobras confusas que se assemelham a um intestino redondo ou a uma noz. Mas os homens que pensam com os sentimentos, têm outra lógica a nadar-lhes nas veias e artérias. Esses acreditam no vazio porque o vêem a toda a hora dentro de si.

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, p. 138

PT
Afonso Cruz leva-nos sempre para um mundo demasiado surreal para ser verdadeiro e talvez demasiado realista para ser sonho.
Ali encontramos motivos para rir e para chorar, motivos para reflectir sobre a inevitável tristeza da vida e para acreditar que é possível encontrar a felicidade onde menos se espera.

Jesus Cristo Bebia Cerveja multiplica personagens que acabam por encontrar-se num enredo de ilusão, ironia, decadência e morte, mas também de ternura, humor e humanidade.
Um sem fim de maravilhosas citações que apetece guardar e reler várias vezes - tendo em conta que o livro que li é emprestado, resta a vontade e a certeza de voltar a encontrar Afonso Cruz noutras leituras!

EN
Afonso Cruz always takes us to a world too surreal to be true and perhaps too realistic to be a dream.
In here you'll find reasons to laugh and cry, to reflect on the inevitable sadness of life and to believe that it is possible to find happiness where you least expect it.

Jesus Cristo Bebia Cerveja [Jesus Christ Drank Beer] multiplies characters that end up meeting in a plot of illusion, irony, decay and death, but also of tenderness, humor and humanity.
An endless number of wonderful quotations that you want to keep and re-read often - taking into account that the book I read was borrowed, there remains the will and the certainty of finding Afonso Cruz again in other readings.

A Paixão Segundo G. H. // Clarice Lispector

2

Tuesday, 11 October 2016



- Tu eras a pessoa mais antiga que eu jamais conheci. Eras a monotonia de meu amor eterno, e eu não sabia. Eu tinha por ti o tédio que sinto nos feriados. O que era? era como a água escorrendo numa fonte de pedra, e os anos demarcados na lisura da pedra, o musgo entreaberto pelo fio d'água correndo, e a nuvem no alto, e o homem amado repousando, e o amor parado, era feriado, e o silêncio no voo dos mosquitos. E o presente disponível. E minha libertação lentamente entediada, a fartura, a fartura do corpo que pede e não precisa.
(...)
Mas tudo isso era fino demais para a minha pata humana. E eu, eu queria a beleza.

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G. H., p 122

PT
Porque às vezes as maiores revelações surgem da banalidade que encontramos na vida de todos os dias, quando estamos demasiado distraídos ou ocupados para reparar. Viver é estar atento.

EN
Because sometimes the greatest revelations come from the banality we encounter in everyday life, when we are too busy or distracted to notice. To live is to be aware.

O Livro dos Homens sem Luz // João Tordo

0

Thursday, 30 June 2016



Tudo, a seu tempo, se evaporara, como se as coisas fossem feitas de água. Os oceanos eram água, tal como os mares e os rios, e os beirais dos telhados quando chovia, e as poças no asfalto, e o corpo era água, e os meus olhos também. Naquele instante em que o mundo se tornou turvo, em que as formas das coisas se mancharam, senti pela primeira vez a vertigem da ilusão, uma ilusão que me tinha enganado toda a vida, convencendo-me disto, e depois daquilo, e sempre desmentindo, negando, roubando, levando aquilo que dera.

João Tordo, O Livro dos Homens sem Luz, p 200 

PT
Mais um livro de João Tordo e começo a ficar viciada nos enredos feitos de personagens angustiadas que nos levam a perseguir memórias, mistérios e fantasmas.

EN
One more book by João Tordo and I start to feel addicted to plots made of anguished characters that take us chasing memories, mysteries and ghosts.

animalescos // Gonçalo M. Tavares

2

Wednesday, 25 May 2016



(...) eis pois as duas funções do solo: não deixar  cair e permitir que sobre ele algo cresça, e assim os homens e também os animais nas suas diferentes fases: no início exigimos ao solo que seja a plataforma onde pousamos os pés para crescer, mas depois crescemos e, em pouco tempo, já queremos fugir e não subir e depois já só queremos não cair, exigimos ao solo que não nos deixe cair, que pelo menos isso, que por favor isso, que rezo ao deus que quiserem para isso, que o solo não te deixe cair e já é bom, porque ao ar não te podes agarrar mesmo quando nesse ar está meio escondido um gesto de cruz que foi feito para abençoar, mas falhou

Gonçalo M. Tavares, animalescos, p 103

PT
Humanidade, animal, deus, cidade, doença, loucura... animalescos são exercícios mentais, passeios literários (ou corridas desenfreadas), brincadeiras sérias com sentidos e palavras, um livro pouco convencional para quem gosta de ser desafiado. Como a pintura de Bacon na capa, este livro assume várias formas e pode deixar quem lê louco, lúcido.

EN
Humanity, animal, god, city, disease, madness... animalescos are mental exercises, literary tours (or fast races), serious play with words and senses, an unconventional book for those who like to be challenged. Like Bacon painting on the cover, this book takes many forms and can leave those who read it crazy, lucid.

Os Passos em Volta // Herberto Helder

2

Thursday, 24 March 2016



Detesto a fraqueza que se remedeia na imaginação, nas hipóteses. Não creio em nada. Não desejo crer em nada.

Herberto Helder, Os Passos em Volta, O Quarto, p 135

PT
E porque ler Herberto Helder, mais do que compreender, é sentir as palavras e ouvi-las dentro de nós, deixo-vos apenas com a vontade de pegar neste livro e começar a vossa própria viagem - talvez de desalento e angustiada introspecção, talvez de descoberta e renascimento.
Um livro a regressar.

EN
And because reading Herberto Helder, more than understanding, is to feel the words, to hear them inside us, I leave you only with the desire to pick up this book [The Steps Around, not translated to English yet, I think] and start your own journey - perhaps of discouragement and anguished introspection, perhaps of discovery and rebirth.
A book to return to.

Aparição // Vergílio Ferreira

0

Thursday, 21 January 2016



Que havia, pois, mais para a vida, para responder ao seu desafio de milagre e de vazio, do que vivê-la no imediato, na execução absoluta do seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia-a-dia os restos de ontem. Ser só abertura para amanhã.
(...) Ninguém pode pagar, nada pode pagar a gratuidade deste milagre de sermos. Que ao menos nós lhe demos, a isso que somos, a oportunidade de o sermos até ao fim. Gritar aos astros até enlouquecermos. Iluminarmos a brasa que vive em nós até nos consumirmos. Respondermos com a absoluta liberdade ao desafio do fantástico que nos habita.

Vergílio Ferreira, Aparição, p 85

PT
Li este livro pela primeira vez há cerca de 18 anos atrás, como leitura obrigatória do 12º ano. Muitos de vocês o terão lido também, não sei se com a mesma sensação de revelação que eu.
Ainda bem que fui obrigada, depois deste li vários outros de Vergílio Ferreira e sempre reencontrei a maravilhosa sensação de me reconhecer a mim mesma em muitas palavras.

Curiosamente, na altura li de um livro emprestado e quando há pouco tempo o livro me chegou de novo às mãos por acaso, não resisti a reler. Sempre achei que seria perda de tempo reler um livro (afinal há tantos bons para ler e tão pouco tempo!), mas não resisti à familiaridade das primeiras palavras, à sensação de redescoberta da revelação que o livro foi para mim na altura - e continua a ser agora, embora de modo diferente.

Já não me lembrava de todas as reviravoltas e dos muitos detalhes, mas lembrava-me bem da angústia de sentir uma vontade maior do que nós de fazer a vida ganhar sentido muito para além do que está diante dos nossos olhos. É algo incontrolável e inexplicável que nos deixa em constante insatisfação e sobressalto - como se devêssemos estar noutro lugar, a fazer outra coisa - como se nada bastasse.

Se gostaram deste, leiam também Estrela Polar, um dos meus favoritos.

EN
I read the book Aparição [Apparition], by Portuguese writer Vergílio Ferreira, for the first time about 18 years ago, as a mandatory reading at school. Many of you have read it as well, don't know if with the same sense of revelation as me.
I'm glad I was obliged, after this I read several other by Vergílio Ferreira and always rediscovered the wonderful feeling of recognizing myself in so many words.

Interestingly, at the time I read from a borrowed book and when recently the book came back into my hands as a mere chance I couldn't resist to read it again. I always thought it would be a waste of time to re-read a book (after all there are so many good to read and so little time!), but couldn't resist the familiarity of the first words, the sense of rediscovery of the revelation that the book was for me at the first time - and still is now, though differently.

I no longer remembered all the twists and many details, but remembered well the anguish of feeling a yearning greater than we, that life would have meaning far beyond what is before our eyes. It's something uncontrollable and inexplicable that leaves us in constant dissatisfaction and jolt - as if we should be somewhere else, doing something else - like nothing was enough.

If you like this one, read also Estrela Polar [Pole Star], one of my favorites.

A Caverna // José Saramago

0

Thursday, 29 October 2015


[Messe Basel, Herzog & De Meron]

A gente habitua-se. Sim, ouvimos dizer muitas vezes, ou dizemo-lo nós próprios, A gente habitua-se, dizemo-lo, ou dizem-no, com uma serenidade que parece autêntica, porque realmente não existe, ou ainda não se descobriu, outro modo de deitar cá para fora com a dignidade possível as nossas resignações, o que ninguém pergunta é à custa de quê se habitua a gente.

José Saramago, A Caverna, p 249

PT
A lucidez de não reconhecermos nos outros a vida que queremos para nós próprios, a capacidade de não nos mentirmos, a certeza de, depois de vermos a luz, não sermos capazes de voltar ao escuro da caverna, por muito que seja difícil caminhar pelo nosso próprio pé e que olhar o sol de frente nos fira os olhos.

Importante ler também sobre a Alegoria da Caverna, de Platão, que prova como a condição humana faz textos com mais de 2000 anos parecerem tão actuais.

EN
About The Cave, by José Saramago.

The lucidity of not recognizing in others the life we want for ourselves, the ability not to lie to ourselves, the certainty of, after seeing the light, not being able to return to the darkness of the cave, even if it's difficult to walk by our own feet and if looking straight at the sun can make our eyes hurt.

Important to also read about the Allegory of the Cave, by Plato, that shows how human condition can make texts with over 2000 years seem so present.

Para Onde Vão os Guarda-Chuvas // Afonso Cruz

2

Tuesday, 14 July 2015



Tal como Elahi, Isa temia que a felicidade fosse apenas a maneira que o universo tem de nos fazer sofrer, um método atroz que faz com que experimentemos a saciedade e uma espécie de alegria, para depois nos retirar isso tudo, nos puxar o tapete e nos levar a uma infelicidade de efeito mais profundo. A melhor maneira de fazer uma pessoa cair é levá-la para um lugar alto, o universo sabe fazer isso muito bem, sabe levar-nos para cima das coisas para melhor nos empurrar. Não se empurra uma pessoa que está no chão, é preciso ampará-la primeiro, é preciso fazê-la subir umas escadas. É preciso que a pessoa sinta vertigens. É preciso que caia de muito alto. É assim que o universo ri.

Afonso Cruz, Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, p 472

PT
Foi um pouco por acaso que me cruzei com Afonso Cruz na Feira do Livro do Porto no ano passado, mas na altura não resisti a pedir-lhe para autografar este Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, que terminei de ler há pouco. A compra foi por impulso, mas algo me dizia que não iria arrepender-me.

É mais um delicioso livro de pequenos tesouros. Um livro que fala de dor, perda, violência, pobreza e morte,  mas também de poesia, da beleza das pequenas coisas que fazem os nossos dias valer a pena.
Um livro que nos deixa de coração apertado, a pensar na inevitabilidade da perda e na difícil possibilidade de redenção em que todos queremos acreditar.
Um livro que nos faz pensar que somos tão pequenos, mas no fundo não somos assim tão diferentes uns dos outros - mesmo quando só vemos as diferenças - que a religião pode ser universal, mesmo que seja tantas vezes motivo de discórdia e incompreensão, que é possível que dentro de cada um de nós exista um universo maior do que o que (des)conhecemos cá fora.

Este equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado será justo?
Será a perda irremediável?
Poderemos nunca vir a ter respostas, mas questionarmo-nos será sempre uma necessidade.

EN
It was somewhat by chance that I met Afonso Cruz at the Book Fair of Porto last year, but at the time I still couldn't resist asking him to sign this Para Onde Vão os Guarda-Chuvas [Where Do Umbrellas End Up?], I finished reading not long ago. The purchase was on impulse, but something told me I wouldn't regret it.

It's a delightful book of small treasures. A book that speaks of pain, loss, violence, poverty and death, but also of poetry, of the beauty of small things that make our days worthwhile.
A book that leaves us with a heavy heart, thinking about the inevitability of loss and the difficult possibility of redemption in which we all want to believe.
A book that makes us think that we are so small, but deep down we are not so different from each other - even when we only see the differences - that religion may be universal, even if it is often a bone of contention and misunderstanding, that is possible that within each of us there is a larger universe than the one we (un)know outside.

Is this absurdly/morally/aesthetically unbalanced balance fair?
Is loss irreparable?
We may never reach the answers but asking will always be a necessity.

A Desumanização // Valter Hugo Mãe

0

Thursday, 23 April 2015



Eu disse-lhe que o meu pai também punha versos no lugar de cada coisa. Ao invés das pedras, ele tinha versos. Tinha versos no caminho. E o sol era uma palavra amarela com outra que faiscava e talvez com crinas de cavalo em dias de maior exuberância. O meu pai, Steindór, põe palavras nas mãos e elas começam a piar e são iguais às andorinhas. Vão embora com elas. Para sempre. Palavras para sempre. Rimos muito. Conversávamos assim e ríamos muito. Algumas palavras, depois, têm outras como filhas. Andam acompanhadas delas e ensinam-lhes a brincar e a serem felizes. Quando passam os bandos a voar, o meu pai diz que é um texto. Diz que o podemos ler.

Valter Hugo Mãe, A Desumanização

PT
A Desumanização, de Valter Hugo Mãe, é uma maravilhosa viagem, não só através do silêncio frio dos fiordes da Islândia, mas sobretudo através de uma muito particular forma de escrever e expressar o que não cabe nas palavras.
A imensidão da tristeza que nos ultrapassa, a incontrolável dor da perda e a necessidade de preencher o vazio (se ao menos fosse possível), o doloroso processo de crescer, a beleza do imaterial que quase se toca, o poder redentor da poesia. A expressão daquilo que nos torna tão humanos, tão expostos e vulneráveis, mas também tão fortes e únicos. O que nos une ao outro e o que nos separa dele, de nós próprios, de quem éramos e que acaba por fazer de nós o que somos.
São palavras que não se sentem apenas, mas se veem. Um turbilhão de emoções, lá fora e cá dentro.

Certamente, um dos livros mais belos que já li.

EN
A Desumanização [The Dehumanization], a book by Valter Hugo Mãe, is a wonderful journey, not only through the cold silence of the fjords of Iceland, but especially through a very particular way to write and express what does not fit in words.
The immensity of sorrow beyond us, the uncontrollable pain of loss and the need to fill the void (if only it were possible), the painful process of growing up, the beauty of immaterial that you can almost touch, the redemptive power of poetry. The expression of what makes us so human, so exposed and vulnerable, but also so strong and unique. What binds us to each other and what separates us from others, from ourselves, from who we were and that ultimately make us what we are.
Words you don't only feel but can see. A whirlwind of emotions, outside and inside.

Certainly one of the most beautiful books I've ever read.

Hotel Memória // João Tordo

0

Wednesday, 18 February 2015


[Detail of Casa Batlló]

Não sei dizer com precisão quanto tempo mantive este ritual, mas penso que deve ter durado dois meses. Dois meses em silêncio, dos quais não guardo outras recordações senão estas, a triste estadia de um homem solitário num poço sem fundo de álcool. Começava a compreender, então, o poder do passado. O passado pode corroer o presente e minar o futuro; é o passado que nos afoga a cara na lama quando já caímos por terra, e que regressa nos momentos mais inesperados para tirar de nós aquilo que já não temos, o sabor das coisas que não tornam a acontecer, porque cada minuto que acontece se perde no precipício ao qual tudo vai, irrevogavelmente, parar.

João Tordo, Hotel Memória

PT
Tento há anos ler regularmente, procurando evitar que todas as obrigações crescentes que nos roubam tempo diariamente me façam abdicar também deste prazer. Intercalo estilos e autores e nem sempre me apetece pegar naquele livro de um autor favorito se o estado de espírito não está em conformidade com o que espero da leitura. Sim, às vezes leio livros apenas para passar tempo, daqueles que não ganham prémios nem somam erudição à lista de leituras... há momentos para tudo. Ainda assim, tento escolher o melhor possível, até porque leio devagar e o tempo não é muito, e nos últimos anos tenho procurado selecionar alguns dos mais recentes autores de língua portuguesa, que muito me têm surpreendido pela positiva, sobretudo Gonçalo M. Tavares, mas também José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe ou João Tordo.

Gostei muito deste Hotel Memória, o segundo livro que li de João Tordo - mais até do que do outro. Em João Tordo o conteúdo e a densidade da trama acaba por ser mais marcante do que a forma como esta é contada - o cenário, os acontecimentos e as personagens acabam por manter-nos envolvidos muito depois da leitura terminar, como se também nós tivéssemos sido incluídos na acção. Li o livro em pouco tempo, mas parece que vivera anos entre as linhas do Hotel Memória e tinha já pena de o deixar.

Um dos aspectos mais interessantes - e que tem vindo a ser recorrente noutros autores desta geração, como curiosamente foi discutido na conversa em que João Tordo esteve presente na última edição da Feira do Livro do Porto - é o facto de este livro aparentar poder ter sido escrito, tanto por um autor português, como de outra nacionalidade - e não digo isto por achar que a identidade nacional se está a perder de algum modo, mas sim, porque os autores portugueses estão cada vez mais internacionais/globais, quer pelas suas vivências, quer pelas suas abordagens e sem que isso os faça esquecer as suas origens (não acho, de todo, que a relação tenha que ser directa).

A memória, essa, irá continuar a deixar-me dividida entre o prazer de recordar e a nostalgia de não podermos nunca regressar ao que fomos - nostalgia que muitas vezes é uma enorme e incontrolável tristeza, uma terrível sensação de irremediável perda. Penso que, por muito realizados que nos sintamos no presente, a maior dificuldade de envelhecer é mesmo essa.

EN
I've been trying to read regularly for years, trying to avoid that all the growing daily obligations that steal us time make me give up of this pleasure too. I diversify in styles and authors, and I don't always feel like picking up that book by a favorite author if the mood is not in line with what I expect of the reading. Yes, sometimes I read books just to pass time, those that don't win awards or add any sense of erudition to the reading list... there is space for everything. Still, I try to choose the best possible, because I read slowly and time is not much. In recent years I've sought to select some of the most recent authors of Portuguese language and I've been positively surprised, especially by Gonçalo M. Tavares, but also José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe or João Tordo.

I really enjoyed this Hotel Memória [Memory Hotel], the second book I read by João Tordo - even more than the other one. In João Tordo the content and the density of the plot turns out to be more prominent than the way it is told - the scenery, the events and the characters keep us involved long after the reading is finished, as if we too had been included in the action. I read the book in a short time, but it seems that I lived years between the lines of Memory Hotel and was already feeling sorry to let go.

One of the most interesting aspects - and that has been recurring in other authors of this generation, as curiously was discussed in the conversation in which João Tordo was present in the latest edition of the Book Fair of Porto - is the fact that this book appears to may have been written, either by a Portuguese author, as by one of another nationality - and I don't say this because I think that national identity is being lost in some way, but because Portuguese authors are becoming increasingly international/global, either by their experiences as by their approach, but without making them forget their origins (I don't think the relation must be direct).

When it comes to memory, it will continue to let me torn between the pleasure of remembering and the nostalgia of knowing that we won't ever return to what we were - a nostalgia that is often a huge and uncontrollable sadness, a terrible sense of irretrievable loss. I think, as much as we may feel accomplished in the present, this is definitely the greatest difficulty of aging.

A Máquina de Joseph Walser // Gonçalo M. Tavares

0

Monday, 12 January 2015



Agir com um sentido importante era a normalidade do tempo de guerra e a preguiça era o seu oposto. Ver alguém a não fazer nada e a não querer fazer nada, causaria tanta estranheza e, provavelmente, tanto repúdio como ver em pleno jardim, na Primavera, um louco a repetir movimentos bruscos e acelerados: arrancando flores com violência, pisando canteiros, abrindo buracos na terra com os dedos. Em tempos de grande intensidade alguém que não soubesse para onde caminhava ou para que fazia aquilo que fazia, estaria louco, pois estaria abstraído dos acontecimentos. Afundar-se no mundo abstracto em período de guerra - momento absoluto do concreto, da matéria e das forças que chocam e combatem - era o mais violento dos actos. Talvez mesmo o mais imoral.
Klober, aliás, fizera já esta pergunta a Walser: o que é mais imoral nestes tempos: matar ou aprender geometria? E Walser nunca lhe soubera responder.

Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph Walser

PT
Provavelmente já tiveram a sensação de se sentirem inúteis por acharem não estar a fazer nada. Provavelmente já se vingaram de dias mais cansativos não fazendo coisa nenhuma - e não faz mal.
Tempos adversos podem alterar a nossa percepção da realidade, mas rapidamente voltamos ao estado de inércia natural quando os bons ventos trazem a prosperidade de volta. Talvez sejam as dificuldades que nos fazem crescer e inventar novos modos de avançar. Talvez a calma de uma época de paz nos faça esquecer a força que temos quando dela precisamos. Mas parecermos ocupados não é exactamente o mesmo que fazermos alguma coisa (útil) e talvez por isso mesmo a felicidade e o descanso nunca sejam completos. Talvez por isso a inquietação cresça sem precisar de água no peito dos mais insatisfeitos, mesmo em tempos em que a paz e a riqueza abundam.
A qualquer momento, as coisas inúteis que fazemos para nós próprios sem ideia de proveito revelarão a sua utilidade [Marguerite Yourcenar, Memórias de AdrianoCaderno de Notas].

Impossível ler Gonçalo M. Tavares sem ficar com a sensação de termos levado um encontrão - daqueles que nos deixam de boca e olhos abertos.

EN
[After reading Joseph Walser's Machine, by Gonçalo M. Tavares.]

You probably already had the sensation of feeling useless because you're not doing anything. You probably took revenge of more weary days by doing nothing at all - and that's ok.
Adverse times can change our perception of reality, but we quickly return to the natural state of inertia when the good winds bring prosperity back. Maybe it's the difficulties that make us grow and invent new ways to advance. Perhaps the calm of a time of peace makes us forget the strength we have when we need it. But to seem busy is not exactly the same as doing something (useful) and perhaps for that the feelings of happiness and peace are never complete. Maybe that's why disquiet grows without need of water in the heart of the most dissatisfied, even in times when peace and wealth abound.
In time, the useless things we do for ourselves without idea of benefit will reveal its usefulness [Marguerite Yourcenar, Memoirs of Hadrian, Carnet de Note].

Impossible to read Gonçalo M. Tavares without getting the feeling of having taken a push - one of those that leave us with the mouth and eyes open.

O Bom Inverno // João Tordo

0

Tuesday, 25 November 2014


1. Baiona

O meu esforço foi tão grande que as lágrimas de dor rapidamente se transformaram num riso de escárnio, e ri-me da minha figura trôpega a meio de um temporal, e ri-me de raiva, e ri-me do suor que me jorrava pelas têmporas, e ri-me do mundo e do que estava para lá do mundo, e ri-me dos deuses que pareciam zombar da minha lentidão. O Inverno chegara, afinal; e era um Inverno de dilúvio, um Inverno de morte, um Inverno de culpa. Era um Inverno convocado por uma confissão e, contudo, mais do que vergonha pela minha mentira - pelo opróbrio de uma condenação -, aquilo que sentia era perplexidade, porque a minha confissão havia, no fundo, sido a confissão de um verdadeiro escritor - o tal cobarde e o tal mentiroso que, por vezes, embora muito raramente, era também corajoso; havia sido a confissão de quem se refugiava numa mentira possível em substituição da realidade impossível.

João Tordo, O Bom Inverno

PT
Há já algum tempo que estava curiosa para ler João Tordo, tal como irei, provavelmente, querer ler cada um dos vencedores do Prémio Literário José Saramago (já lá vão quatro), mas foi um pouco por acaso que peguei neste O Bom Inverno e o levei comigo de férias.

Devorei-o em poucos dias e estou certa de que não terá sido apenas porque os dias de praia me deram pouco o que fazer. O enredo tem um pouco de tudo para nos prender: romance, policial, humor, mistério, terras distantes, personagens e diálogos fortes, um narrador que merece pena e admiração, um enredo cinematográfico que surpreende em catadupa (não se deixem levar pelo aparente marasmo dos primeiros capítulos).
Imaginava-me a ver um filme, daqueles que não sabemos bem como vai acabar e a dada altura, sem conseguir tirar os olhos empolgados do ecrã, já não sabemos bem se queremos saber como acaba, com medo que o entusiasmo crescente termine em desilusão. Mas não, nada disso acontece, pelo menos para mim: a surpresa e o mistério mantêm-se, como se mantém a vontade de ler mais, de saber que narrativa poderá trazer a seguir João Tordo para povoar a nossa mente inquieta, sempre com mais vontade de colocar questões do que vê-las respondidas.

Já a pensar no livro do autor que irei ler a seguir.

EN
For some time I was curious to read João Tordo, as I'll probably want to read each of the winners of the Literary Prize José Saramago (read four so far), but was a little by accident that I bought and took this O Bom Inverno [The Good Winter] with me on vacation.

I devoured it in a few days and I'm sure it wasn't only because beach days gave me little to do. The plot has a bit of everything to hold us: romance, thriller, humor, mystery, distant lands, strong characters and dialogues, a narrator who deserves pity and admiration, a cinematic story that surprises in cascade (don't be mislead by the apparent apathy of the first chapters).
I imagined myself watching a movie, those you can't imagine how will end and at some point, unable to take the excited eyes of the screen, you're not sure you want to know how it ends, afraid that the growing enthusiasm ends in disappointment. But no, none of this happens, at least for me: the surprise and mystery remain, as remains the desire to read more, to know what narrative will bring João Tordo next to fill our restless mind, always more willing to ask questions than to see them answered.

Already thinking about the book by the author I'll read next.

Memória de Elefante

0

Thursday, 11 September 2014

Galicia 08'14

1. Islas Cíes

Não havia comida para bebés em Malange e a nossa filha tornou a Portugal magra e pálida, com a cor amarelada dos brancos de Angola, ferrugenta de febre, um ano a dormir em cama de bordão de palmeira junto das nossas camas de quartel, estava a fazer uma autópsia ao ar livre por via do cheiro quando me chamaram porque desmaiaras, encontrei-te exausta numa cadeira feita de tábuas de barrica, fechei a porta, acocorei-me a chorar ao pé de ti repetindo Até ao fim do mundo, até ao fim do mundo, certo da certeza de que nada nos podia separar, como uma onda para a praia na tua direcção vai o meu corpo, exclamou o Neruda e era assim connosco, e é assim comigo só que não sou capaz de to dizer ou digo-to se não estás, digo-to sozinho tonto do amor que te tenho, demais nos ferimos, nos magoámos, nos tentámos matar dento de cada um, e apesar disso, subterrânea e imensa, a onda continua e como para a praia na tua direcção o trigo do meu corpo se inclina, espigas de dedos que te buscam, tentam tocar-te, se prendem na tua pele com força de unhas, as tuas pernas estreitas apertam-me a cintura, subo a escada, bato o trinco, entro, o colchão conhece ainda o jeito do meu sono, penduro a roupa na cadeira, como uma onda para a praia como uma onda para a praia como uma onda para a praia na tua direcção vai o meu corpo.

António Lobo Antunes, Memória de Elefante

PT
Quem já leu António Lobo Antunes terá provavelmente a mesma sensação de dificuldade de transição que eu. Durante as primeiras páginas parecemos estar a ler um outro Português, onde o conceito de metáfora é reinventado e cada palavra é dissecada numa montanha-russa sucessiva de referências e sentidos. É difícil entrar, mas depois da porta aberta um conforto sobressaltado de emoções toma conta do compartimento de onde só parecemos sair enquanto momentaneamente fechamos o livro.

Para além de crónicas dispersas, li há alguns anos Os Cus de Judas, com a certeza de ter tido uma revelação. Tentei dar início à leitura de Ontem não te vi em Babilónia, mas esse continua a meio na mesa de cabeceira... a ele hei-de regressar um dia com novo folego. Com vontade de reler Lobo Antunes decidi-me então pelo primeiro romance do autor, já de 1979, bem mais pequeno, todo ele decorrido ao longo de um dia e noite de uma personagem: Memória de Elefante.
Um complexo cruzar de tempos, espaços e narradores, com uma forte influência autobiográfica marcada pela Guerra Colonial e a dor de um passado com que não se consegue conviver, acaba por estar sempre presente.
Respirar fundo e ler com calma cada palavra, com a certeza de sermos virados do avesso por uma rica e complexa escrita que, mais do que contar uma história, vale por si própria.

António Lobo Antunes poderá não ser para ler em qualquer altura, mas é certamente, mais cedo ou mais tarde, de leitura obrigatória - e para a ele obrigatoriamente regressar de tempos a tempos.

EN
Who ever read António Lobo Antunes will probably feel the same difficulty of transition I do. During the first few pages you seem to be reading another kind of language, where the concept of metaphor is reinvented and every word is dissected in a successive rollercoaster of references and meanings. It's difficult to enter, but as soon as the door opens a startling comfort of emotions takes over the room you only seem to leave while momentarily closing the book. 

Apart from some scattered chronics, I read a few years ago Os Cus Judas (available in English: The Land at the End of the World), with the certainty of having had a revelation. Later I tried to start the reading of Ontem não te vi em Babilónia, but this one is still unfinished and laid on the bedside table... I'll return to it someday with new breath. In the mood to read Lobo Antunes again I decided to choose the first novel by the author, from 1979, much smaller, all of it passed over a day and night of a character: Memória de Elefante
A complex cross of times, spaces and narrators, with a strong autobiographical influence marked by the Portuguese Colonial War and the pain of a past with which one cannot coexist, is ultimately always present. 
Breathe deeply and calmly read every word, with the certainty of being turned upside down by a rich and complex writing that, rather than telling a story, stands on its own. 

António Lobo Antunes may not be an everyday reading, but is certainly, sooner or later, mandatory - as it is to return to it from time to time.

Inferno

2

Wednesday, 16 July 2014



[source]

PT
E agora que terminei a agitada leitura de Inferno, mais do que preocupada com os perigos iminentes da superpopulação humana à face da terra, fiquei, sobretudo, com uma enorme vontade de visitar Istambul... porque será?

EN
And now that I finished the bustling reading of Inferno, rather than being worried about the imminent dangers of human overpopulation on the face of the earth, I was left, above all, with a strong desire to visit Istanbul... why could that be?

Ana Pina | blog

All rights reserved | Powered by Blogger

^