A Caverna // José Saramago

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Thursday, 29 October 2015


[Messe Basel, Herzog & De Meron]

A gente habitua-se. Sim, ouvimos dizer muitas vezes, ou dizemo-lo nós próprios, A gente habitua-se, dizemo-lo, ou dizem-no, com uma serenidade que parece autêntica, porque realmente não existe, ou ainda não se descobriu, outro modo de deitar cá para fora com a dignidade possível as nossas resignações, o que ninguém pergunta é à custa de quê se habitua a gente.

José Saramago, A Caverna, p 249

PT
A lucidez de não reconhecermos nos outros a vida que queremos para nós próprios, a capacidade de não nos mentirmos, a certeza de, depois de vermos a luz, não sermos capazes de voltar ao escuro da caverna, por muito que seja difícil caminhar pelo nosso próprio pé e que olhar o sol de frente nos fira os olhos.

Importante ler também sobre a Alegoria da Caverna, de Platão, que prova como a condição humana faz textos com mais de 2000 anos parecerem tão actuais.

EN
About The Cave, by José Saramago.

The lucidity of not recognizing in others the life we want for ourselves, the ability not to lie to ourselves, the certainty of, after seeing the light, not being able to return to the darkness of the cave, even if it's difficult to walk by our own feet and if looking straight at the sun can make our eyes hurt.

Important to also read about the Allegory of the Cave, by Plato, that shows how human condition can make texts with over 2000 years seem so present.

Fundação José Saramago

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Friday, 13 September 2013

Lisboa 08'13
Lisboa 08'13
Lisboa 08'13
Lisboa 08'13
Lisboa 08'13

A Casa dos Bicos foi outro dos sítios que visitamos em Lisboa - não para apreciar a estranha arquitectura, mas para recordar com saudade o grande homem que dá nome à Fundação que lá se encontra: José Saramago.

Com a mesma veemência e a mesma força com que reivindicarmos os nossos direitos, reivindiquemos o dever dos nossos deveres.

EN
Casa dos Bicos was another of the places we visited in Lisbon - not to appreciate its strange architecture, but to remember with longing the great man who gives name to the Foundation housed there: José Saramago.

celebrar o desassossego

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Monday, 18 June 2012

Contar os dias pelos dedos e encontrar a mão cheia.
José Saramago (16.11.1922 - 18.06.2010)

De cada vez que celebramos as suas palavras, a sua memória perdura mais demoradamente no tempo.
Que perdure também a indignação, o desassossego, a lucidez, a vontade de mudar o mundo e humanizar o Homem.

Ainda hoje, dois anos passados, recordo-o sem conseguir evitar uma lágrima e um sorriso.
Agora, há mais um novo e feliz motivo para visitar Lisboa.


[foto daqui]

To count the days by the fingers and find a hand full.
José Saramago (16.11.1922 - 18.06.2010]

Each time we celebrate his words, his memory lingers in time.
Let it also endure the indignation, the uneasiness, the lucidity, the will to change the world and humanize Man.

Even today, two years passed, I remember him without containing a tear and a smile.
Now there's a new and happy reason to visit Lisbon.

watch + José & Pilar

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Tuesday, 21 December 2010





José Saramago não é só um grande escritor português que ganhou o Nobel. Antes disso é o homem, que viveu e amou, que celebrou a sua humanidade olhando e vendo o mundo com os seus olhos, criando personagens que mesmo com o peso da sua condição divina são humanas, contando histórias à sua maneira. A sua ironia não é mais do que uma forma de humor inteligente que nem todos querem compreender, preferindo apelida-lo de polémico. Para mim Saramago nunca foi o pessimista antipático que pintam - sempre o vi como um homem rigoroso, mas sonhador e bem-humorado, que vê o mundo de uma forma absolutamente lúcida e que confia nas mãos do homem a capacidade de o transformar num lugar melhor, mais digno e mais justo.
Extremamente simples e convicto dos seus princípios é avesso, tal como eu, à mentira e à hipocrisia e para se sentir fiel a si mesmo vê-se obrigado a dizer verdades que doem - pois só assim são sentidas. Não é obrigatório concordar com tudo o que Saramago diz para o admirar - é preciso, sim, reflectir acerca do mundo em que vivemos e nunca nos conformarmos com a inevitabilidade do que nos vendem como verdade inquestionável. A indignação faz o mundo andar para a frente - e nós andamos com ele.

José & Pilar é um documentário realizado por Miguel Gonçalves Mendes, que retrata com sensibilidade o homem que era Saramago na sua dimensão mais humana. O documentário foi gravado enquanto o escritor dava vida a Salomão ao longo da Viagem do Elefante e mostra o dia-a-dia do casal inseparável, que vivia e trabalhava em conjunto, entre Lanzarote, onde viviam, Lisboa e o resto do mundo, numa azáfama de palavras, autógrafos, discursos e flashes... O estado débil de Saramago não o fez parar, porque a mensagem que ele sabia ter para transmitir ao mundo e a obrigação que sentia para com os seus leitores eram muito mais fortes do que o cansaço.

Pilar, se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de te conhecer, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora. - é provavelmente a mais bela declaração de amor que já ouvi.

Pensei que não iria conseguir evitar as lágrimas enquanto assistia ao documentário no cinema, mas o que não pude conter foi antes o sorriso - de ternura, de respeito, de admiração e saudade. Quem nunca compreendeu Saramago devia ver o documentário, para conhecer, se conseguir libertar-se de algum preconceito mais resistente, o Homem. Quem o compreende vai querer vê-lo.
A minha maior pena é saber que não terei novos livros e novos desafios para ler... mas sei que quando os tiver lido todos poderei voltar ao início - enquanto a obra não morre o homem vive com ela.

Ainda vão a tempo.

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desafio: 15 escritores

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Wednesday, 15 December 2010

living room | reading (05)
living room | reading (011)

O desafio foi lançado aqui. Não gosto muito de dar continuidade a pedidos em cadeia, mas este não podia deixar de aceitar, por duas simples razões. Em primeiro lugar, a Maria tem um dos blogs mais belos que conheço e acompanho regularmente, para além de um trabalho absolutamente delicioso. Em segundo lugar, porque o tema do desafio me diz muito: ler e escrever são para mim das coisas que mais prazer me dão e terei muito gosto em recordar livros que me apaixonaram e partilhar convosco a difícil escolha dos 15 escritores que mais gostei de ler - até hoje, porque muitos mais virão!

É difícil não ceder a combinar nesta lista dois critérios: alguns são nomes de escritores favoritos, outros serão títulos favoritos, porque por um motivo ou por outro não tive oportunidade de ler mais do que uma obra desse autor, ainda que me tenha marcado.

O primeiro nome incontornável é o de José Saramago. Tinha 15 anos quando li o primeiro livro de Saramago, 3 anos antes de ele ganhar o Nobel em 1998, o que me deixou muito orgulhosa. Dos 16 romances que escreveu já li 11 e sei que é uma questão de tempo até os restantes ocuparem o seu lugar na minha biblioteca. É o autor que mais admiro e um dos que mais prazer me dá ler, pela sua personalidade única, a sua ironia e lucidez, o seu humor e capacidade crítica - foi com tristeza que recebi a notícia da sua recente morte e não consegui evitar algumas lágrimas quando me apercebi da inevitabilidade de não mais voltar a ler um novo livro seu... entre os meus favoritos estão Ensaio sobre a Cegueira, Evangelho Segundo Jesus Cristo e Memorial do Convento.

Outro autor português que me cativa e faz pensar é Vergílio Ferreira, que conheci através da Aparição, de leitura obrigatória no meu 12º ano, mas que continuei a ler muito depois disso... bem como António Lobo Antunes, que me fascinou inicialmente com a leitura d'Os Cus de Judas.
Agrada-me a problemática existencialista na obra de Milan Kundera, que chegou até mim pel'A Insustentável Leveza do Ser e a escrita mágica de Gabriel Garcia Marquez, que me deu a conhecer a persistência d'O Amor nos Tempos de Cólera e os perigos e fragilidades do poder durante O Outono do Patriarca.
A curiosidade e o interesse pela leitura de géneros diferentes levou-me ao longo dos anos a descobrir o imaginário de terror de Stephen King, a controvérsia de Henry Miller, o romantismo clássico d'O Monte dos Vendavais, de Emily Brönte, o fascínio pelo universo dos vampiros encontrado em Drácula, de Bram Stoker, a originalidade do vocabulário d'A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, a beleza triste d'O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy ou o sinistro apelo aos sentidos d'O Perfume, de Patrick Süskind, cujo final ainda hoje ecoa na minha memória.

Falando de escrita não podia deixar de parte um dos géneros que grande presença tem tido na minha vida: a poesia. Elejo três dos nomes que sou capaz de ler até à exaustão, repetindo um poema atrás do outro: Fernando Pessoa (sendo o meu heterónimo preferido o Álvaro de Campos), Miguel Torga e Florbela Espanca.

Obrigada a estes e a muitos outros escritores por me fazerem viajar através das suas palavras!
Ainda para além das palavras fazem parte da minha biblioteca muitos livros de arte, arquitectura, viagens e até de culinária, que ocupam um lugar muito especial num dos meus espaços preferidos lá de casa.

Deixo também o convite a quem quiser participar no desafio: partilha os teus 15 escritores favoritos - deixa um comentário ou um link com a resposta, a minha curiosidade é grande!

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luto

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Friday, 18 June 2010

Custa dizer a palavra morte.
Há estranhos cuja partida nos dói mais do que a de um familiar - talvez porque não nos são realmente estranhos.
É um dia triste num mundo mais pobre... são muitos os livros que ficam por escrever e as minhas palavras não chegam.

Adeus José Saramago.

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Caim: a polémica

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Thursday, 22 October 2009



Quem diabo é este Deus (...) ?

Polémico. Sarcástico. Implacável. Igual a si próprio.

Uma visão lúcida da humanidade pode ser difícil de digerir... ainda mais quando até olhar ao espelho nos assusta.

O novo livro de José Saramago foi publicado. Ingenuidade a minha quando não imaginei que pudesse ser imediatamente atirado à fogueira (da Inquisição?).

Apetece apenas dizer: sem comentários.
A estupidez humana é uma coisa que me assusta. Muito e cada vez mais.

[As várias versões da capa de Caim foram encontradas aqui.]

watch + Los Abrazos Rotos

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Thursday, 10 September 2009


Los Abrazos Rotos, o último de Pedro Almodóvar.

Depois de ver o filme só conseguia lembrar-me de uma frase que lera meses antes n'O Caderno de Saramago: Quando vi “Volver” enviei a Pedro uma mensagem em que lhe dizia: “Tocaste a beleza absoluta”. Talvez (seguramente) por pudor, não me respondeu.

Mais do que com Volver foi essa a sensação com que saí da sala de cinema depois de ver este Los Abrazos Rotos. Um filme belíssimo, que mostra a musa de Almodóvar em todo o seu esplendor e nos traz uma visão madura dos temas com que pinta a humanidade: a fatalidade do destino, a inevitabilidade da morte, as difíceis relações humanas e os segredos que estas escondem, o papel preponderante da mulher e, claro... uma capacidade desconcertante de nos fazer rir no meio da tragédia.

Como Almodóvar é um daqueles realizadores que ou se amam ou se odeiam, só mesmo vendo o filme cada um poderá situar-se... quem nunca viu nenhum por desinteresse, preconceito ou puro acaso, porque não começar agora?

[Os créditos da foto: aqui.]


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